
O Carnaval brasileiro ultrapassa a ideia de festa popular e consolida-se como uma das mais relevantes expressões culturais do país. Reconhecido por sua força simbólica, histórica e econômica, o evento envolve comunidades inteiras, mobiliza cadeias produtivas e preserva saberes transmitidos entre gerações. No entanto, embora seja amplamente celebrado como símbolo nacional, o debate sobre sua valorização enquanto patrimônio cultural, especialmente no que se refere aos fazedores de cultura popular, permanece atual e necessário.
Em um cenário em que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece manifestações como o samba de roda do Recôncavo Baiano como patrimônio cultural imaterial, torna-se essencial refletir sobre a importância de políticas públicas que garantam não apenas o espetáculo, mas a dignidade, o reconhecimento e a permanência daqueles que constroem o Carnaval ao longo de todo o ano.
É nesse contexto que propomos o seguinte tema de redação:
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “A valorização do Carnaval como patrimônio cultural para os fazedores de cultura popular no Brasil”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.
Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.
A seguir, serão apresentados seis textos motivadores, cada um com função específica para ampliar sua reflexão e fornecer subsídios argumentativos para a construção da redação.
manifestações ligadas ao Carnaval como patrimônio cultural brasileiro, compreendendo-as como bens de natureza imaterial que expressam saberes, práticas e tradições transmitidas entre gerações. De acordo com o Ministério da Cultura, o Carnaval vai além do caráter festivo, configurando-se como espaço de identidade, resistência e produção cultural das comunidades envolvidas.
A reportagem destaca que mestres de bateria, ritmistas e integrantes das escolas de samba compreendem o Carnaval como parte constitutiva de suas trajetórias de vida, sendo a festa um ambiente de pertencimento comunitário, memória coletiva e reafirmação cultural. Além disso, o reconhecimento institucional dessas manifestações reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à salvaguarda e valorização dos grupos responsáveis por sua continuidade.
Fonte: Ministério da Cultura. Carnaval: Patrimônio Cultural espaço de resistência e identidade popular. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/carnaval-patrimonio-cultural-espaco-de-resistencia-e-identidade-popular
Segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o Carnaval de 2026 deve movimentar cerca de R$ 14,48 bilhões na economia brasileira, representando crescimento de 3,8% em relação ao ano anterior. A entidade também prevê a abertura de aproximadamente 39,2 mil vagas de emprego temporário durante o período.
Além disso, o Brasil deve receber 1,42 milhão de turistas estrangeiros em fevereiro de 2026, número 4% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. Setores como bares e restaurantes, transporte e hospedagem concentram a maior parte da receita gerada, evidenciando o impacto econômico da festa para a economia criativa e para os trabalhadores envolvidos nas atividades carnavalescas.
Fonte: Correio Braziliense. Carnaval deve movimentar R$ 14 bi em 2026 com fluxo recorde de turistas. Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/02/7354616-carnaval-deve-movimentar-rs-14-bi-em-2026-com-fluxo-recorde-de-turistas.html
Estudos sobre a história do samba indicam que, nas primeiras décadas do século XX, a manifestação foi associada às vivências de comunidades negras e periféricas, muitas vezes submetidas à repressão e à desvalorização social. Com o passar do tempo, especialmente nos anos 1930, o samba ampliou sua presença no imaginário nacional e passou a ser interpretado como um signo identitário do Brasil, articulando experiências de sociabilidade, narrativas do cotidiano e tradições culturais transmitidas entre gerações.
Nesse sentido, a consolidação do samba como expressão cultural reconhecida evidencia tensões entre a origem popular da manifestação e os processos de legitimação social e institucional, que podem produzir tanto valorização quanto apagamentos das trajetórias dos grupos responsáveis por sua criação e manutenção.
Fonte: SANTOS, Camilla Ramos dos; ROCHA, Marlúcia Mendes da. O samba como signo identitário do Brasil e a sua literariedade nos anos 1930. Revista Contexto (UFES), n. 31, 2017/1. Disponível em:
https://periodicos.ufes.br/contexto/article/view/14965
A imagem apresenta um desfile de escola de samba na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, com arquibancadas lotadas e forte iluminação noturna. Observa-se a presença de carro alegórico em destaque, componentes fantasiados e organização do cortejo na pista. O enquadramento evidencia a escala do evento e a participação articulada de diferentes agentes, como integrantes da escola, público, equipes técnicas e estruturas de transmissão, sugerindo o caráter coletivo e profissional da manifestação.
Fonte: CNN Brasil. Carnaval 2026: veja a ordem da 2ª noite de desfiles da Série Ouro no RJ. Disponível em:
https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/carnaval/carnaval-2026-veja-a-ordem-da-2a-noite-de-desfiles-da-serie-ouro-no-rj/
O Ministério da Cultura destaca que o Carnaval brasileiro deve ser compreendido como um ecossistema produtivo complexo, que envolve cadeias de produção cultural, geração de emprego e renda, circulação de bens simbólicos e formulação de políticas públicas. Pesquisas recentes analisam desde os impactos econômicos do setor até os desafios relacionados à formalização das atividades e ao acesso a mecanismos de fomento, como a Lei Rouanet.
Estudos também evidenciam que, além do impacto financeiro, o Carnaval produz valor público ao promover coesão social, fortalecimento de identidades, formação de redes comunitárias e ampliação do acesso a direitos culturais. Nesse contexto, o reconhecimento institucional da manifestação como política pública estruturante é apontado como etapa fundamental para sua valorização e consolidação enquanto patrimônio cultural e atividade econômica organizada.
Fonte: Ministério da Cultura. Carnaval ganha espaço como campo estratégico de pesquisa e formulação de políticas culturais. Disponível em:
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/carnaval-ganha-espaco-como-campo-estrategico-de-pesquisa-e-formulacao-de-politicas-culturais
Diversos projetos em tramitação na Câmara dos Deputados discutem o reconhecimento de manifestações carnavalescas como patrimônio cultural, bem como a ampliação de incentivos econômicos e medidas de proteção aos participantes da festa. Entre as propostas, destacam-se iniciativas que buscam declarar grupos tradicionais, como os “Bate Bolas” do Rio de Janeiro, as Velhas Guardas das Escolas de Samba e os Bonecos Gigantes de Olinda, como patrimônios culturais do povo brasileiro.
Também estão em debate a criação de um Fundo Nacional de Incentivo e Manutenção do Carnaval Brasileiro, a concessão de isenção tributária para instrumentos musicais adquiridos por ligas de escolas de samba e projetos voltados ao combate à importunação sexual durante o período festivo. As propostas evidenciam que o Carnaval, além de manifestação cultural, constitui pauta recorrente no Legislativo, envolvendo discussões sobre preservação patrimonial, financiamento público, direitos humanos e segurança.
Fonte: Câmara dos Deputados. Projetos na Câmara buscam fortalecer o Carnaval como patrimônio e ampliar a segurança dos foliões. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1245274-projetos-na-camara-buscam-fortalecer-o-carnaval-como-patrimonio-e-ampliar-a-seguranca-dos-folioes/
A obra discute a formação da identidade nacional brasileira e evidencia como práticas culturais populares estruturam a construção social do país. Pode ser usada para argumentar que o Carnaval é expressão legítima da identidade brasileira e não mero entretenimento.
Ao analisar a formação cultural brasileira a partir da miscigenação, a obra permite defender que manifestações como o samba e o Carnaval são frutos da resistência e da contribuição afro-brasileira, exigindo reconhecimento e valorização institucional.
Apresenta o Brasil como resultado de múltiplas matrizes culturais. Pode fundamentar a ideia de que o Carnaval é síntese cultural do país e patrimônio identitário das classes populares.
Filme ambientado no Carnaval do Rio de Janeiro que internacionalizou a cultura brasileira. Pode ser usado para mostrar que o mundo reconhece o valor simbólico do Carnaval, mas internamente ainda há desvalorização estrutural dos seus trabalhadores.
Mostra a importância do samba e dos compositores da Velha Guarda da Portela, evidenciando a transmissão de saberes entre gerações — argumento forte sobre patrimônio imaterial e memória coletiva.
Enaltece o Brasil como nação plural e culturalmente vibrante — pode ser usada para sustentar o Carnaval como símbolo nacional.
Representa resistência cultural e persistência das comunidades do samba.
Mostra o Carnaval como momento de afirmação popular.
Muitos enredos abordam temas sociais (racismo, desigualdade, democracia), provando que o Carnaval também é espaço de debate político e consciência social.
Determina que o Estado garantirá o pleno exercício dos direitos culturais e apoiará a valorização das manifestações culturais.
Define o patrimônio cultural brasileiro como bens de natureza material e imaterial.
Reforça juridicamente o Carnaval como expressão de patrimônio imaterial.
Sambistas eram criminalizados e reprimidos, evidenciando que o Carnaval surgiu como resistência cultural negra.
Getúlio Vargas incorporou o samba como símbolo da identidade brasileira.
Mostra o contraste entre valorização externa e precarização interna dos trabalhadores da cultura.
Problema:
Apesar de ser símbolo nacional, o Carnaval ainda não garante valorização contínua aos trabalhadores da cultura popular.
Causa:
Herança histórica de marginalização das manifestações afro-brasileiras e ausência de políticas estruturantes permanentes.
Consequência:
Precarização do trabalho cultural, falta de reconhecimento profissional e descontinuidade de tradições.
Solução possível:
Políticas públicas permanentes de financiamento, formação cultural e reconhecimento profissional dos agentes do Carnaval.
Problema:
O Carnaval é frequentemente visto apenas como motor turístico e econômico.
Causa:
Visão mercadológica que prioriza lucro em detrimento da dimensão simbólica e identitária.
Consequência:
Desvalorização do patrimônio imaterial e esvaziamento do significado cultural.
Solução possível:
Integração entre políticas culturais e educacionais, inserindo o Carnaval como patrimônio histórico nos currículos escolares.
Portanto, valorizar o Carnaval como patrimônio cultural brasileiro significa reconhecer que ele não é apenas um evento festivo ou um produto turístico, mas uma manifestação histórica construída por comunidades que preservam saberes, memórias e identidades ao longo de gerações. Os fazedores de cultura, mestres de bateria, ritmistas, costureiras, coreógrafos, compositores e tantos outros trabalhadores, são responsáveis por manter viva uma tradição que articula pertencimento, resistência e expressão artística.
Nesse sentido, a efetiva valorização do Carnaval exige políticas públicas contínuas de fomento cultural, reconhecimento profissional dos trabalhadores da cultura popular e ações educativas que fortaleçam a compreensão do patrimônio imaterial como direito constitucional. Ao compreender o Carnaval como espaço de identidade, economia criativa e cidadania, amplia-se o debate para além do espetáculo e consolida-se a cultura popular como elemento central da formação social brasileira.
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