O início como escritora
Com 13 anos, Lispector decidiu ser escritora. Ela mesma contou em diversas entrevistas que o desejo de se tornar escritora foi mais forte do que ela e que ela tão somente apoderou-se desse desejo, já existente em seu íntimo desde sempre. Mas a primeira publicação só veio aos 20 anos e, claro, como Clarice é Clarice, essa publicação não poderia ser mais inusitada. Sua primeira publicação foi de um conto intitulado como
Eu e Jimmy, com temática altamente feminista, mas centrado na relação amorosa entre um homem e uma mulher. Até então, sem problemas, certo? Quase certo, se o local de publicação não fosse a revista
Vamos Ler, destinada ao público exclusivamente masculino e de alta classe. O primeiro romance veio a público em 1944 (
Perto do Coração Selvagem) após muitas dificuldades para a publicação, pois só se publicava algo quem tinha alguma influência social, o que não era o caso de Clarice. As experiências pessoais de Clarice e os ambientes em que viveu influenciaram fortemente as obras da autora, tanto que
Perto do Coração Selvagem trata da história de Joana, uma jovem que perdera a mãe bastante cedo e que perde o pai anos mais tarde.
Principais obras e características
Clarice conta com mais de 20 obras publicadas em vida e uma porção de reuniões de seus contos e textos de jornal organizadas após sua morte, porém, mesmo com um trabalho tão extenso, uma característica de Lispector salta aos olhos: o caráter intimista. Os livros de Clarice são recheados de
sentimentos e impressões pessoais e altamente íntimas de suas protagonistas. Esse
caráter intimista é tão marcante no modo de pensar das personagens que gera epifanias (compreensão da essência de algo, revelação súbita). Além disso, percebe-se em suas criações a discussão mais aprofundada de
temas abstratos e o retrato da vida cotidiana em diversos contextos em que a própria autora viveu, dando assim um
toque autobiográfico às suas produções. Existem três obras de Lispector que são cobradas com mais frequência em testes de grande porte:
Laços de Família (1960),
Felicidade Clandestina (1971) e a
Hora da Estrela (1977). Em
Laços de Família, a autora, por meio de 13 contos, cria personagens comuns, donas de casa, esposas, maridos, filhos e filhas, e suas relações em família, porém, essas relações parecem se constituir num aprisionamento do sujeito diante das exigências sociais. Lembra que te contamos lá em cima que Clarice se divorciou em 1959 e que a vida de uma mulher divorciada no contexto social e histórico em que ela viveu não era nada fácil? Quanto das próprias vivências de Clarice existem em
Laços de Família?
Felicidade Clandestina, reunindo desta vez 25 contos (alguns já anteriormente publicados) trata de três situações da vida- a infância, a adolescência e a família, repletas da abordagem da angústia que é peculiar a cada uma dessas situações. E, claro,
A Hora da Estrela (que sua professora de Língua Portuguesa já deve ter te pedido para ler em algum momento), que trata da história de Macabéa, uma nordestina de Alagoas que tenta, de maneira extremamente inocente, escapar do contexto de pobreza extrema, chegando até mesmo à miséria, indo para o Rio de Janeiro (opa, autobiografia novamente?).

Clarice e os temas de redação
A obra de Clarice é muito, muito rica em qualidade e quantidade, bem como sua vida é uma grande inspiração. Sendo assim,
temas que envolvam a condição de vida da mulher, o feminismo, a desigualdade de gêneros e afins são um prato cheio para terem Clarice enquanto sustentação de argumento. Não se esqueça da própria vida dela, uma refugiada que busca consolo no nordeste brasileiro, mas que se vê numa situação tão miserável que procura condições de vida melhores no Rio de Janeiro. A
pressão social, as infelicidades e angústias que isso acarreta são outros três assuntos que praticamente exigem a presença de Lispector no texto. Poucos autores conseguiram descrever o íntimo de uma personagem marcada pela pressão social como ela. Clarice viveu na própria pele o peso e as
dificuldades de ser mulher num ambiente em que mulheres praticamente não produziam cultura no Brasil, o peso de ser escritora, ter um excelente material em mãos, mas sofrer o dolorido preconceito de gênero. Lispector também é uma autora que olha para a
“gente como a gente” e entende nessas pessoas um universo íntimo e vasto de pensamentos, alegrias, tristezas, angústias, dando espaço para esses tipos. Lembre-se que, por muito tempo e em muitos movimentos literários, as pessoas comuns não eram retratadas nem mesmo enquanto personagens.