Os desafios para valorizar as festas juninas como patrimônio cultural no Brasil | Tema de redação

Com a proximidade do Dia de São João, celebrado em 24 de junho, as festas juninas voltam a ocupar escolas, praças, ruas, redes sociais e calendários turísticos em diferentes regiões do Brasil. Mais do que uma comemoração típica do mês de junho, essa manifestação reúne música, dança, culinária, religiosidade, memória coletiva e trabalho de milhares de pessoas que ajudam a manter viva uma das tradições populares mais fortes do país.
No entanto, quando o assunto aparece em uma proposta de redação no estilo Enem, o ideal não é tratar as festas juninas apenas como uma data comemorativa. O melhor caminho é transformar o tema em problema social: se essa tradição é reconhecida por lei como manifestação da cultura nacional, por que ainda há desafios para sua valorização, preservação e transmissão às novas gerações?
Esse debate ganhou ainda mais força com a Lei 14.555/2023, que reconheceu as festas juninas como manifestação da cultura nacional, e com a Lei 14.900/2024, que incluiu também as quadrilhas juninas nesse reconhecimento. Por isso, o tema permite discutir direitos culturais, desigualdade regional, educação patrimonial, economia criativa e preconceitos contra manifestações populares.
Instruções da proposta
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Os desafios para valorizar as festas juninas como patrimônio cultural no Brasil”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.
Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.
Textos motivadores sobre festas juninas como patrimônio cultural
TEXTO I - O reconhecimento legal das festas juninas
A Lei 14.555/2023 reconheceu as festas juninas como manifestação da cultura nacional. Em 2024, a Lei 14.900 alterou esse texto para incluir também as quadrilhas juninas no mesmo reconhecimento. Esse marco legal reforça que as festas não devem ser vistas apenas como entretenimento sazonal, mas como expressão de identidade, memória e diversidade cultural brasileira.
Fonte: Presidência da República. Lei 14.555/2023. Disponível em: planalto.gov.br
TEXTO II - As quadrilhas juninas como manifestação cultural
Segundo a Agência Senado, a Lei 14.900/2024 reconheceu as quadrilhas juninas como manifestação da cultura nacional, destacando sua importância para a preservação da identidade cultural brasileira. As apresentações envolvem figurinos, música, coreografia e transmissão de tradições, especialmente em regiões onde os festejos de São João têm forte valor comunitário.
Fonte: Agência Senado. Lei reconhece quadrilhas de festa junina como manifestação cultural. Disponível em: lei reconhece quadrilhas de festa junina como manifestacao cultural (www12.senado.leg.br)
TEXTO III - Cultura, turismo e economia criativa
Em 2026, a Agência Senado destacou que os festejos juninos movimentam atividades ligadas ao turismo, ao comércio e aos serviços. A reportagem também aponta que projetos em análise no Senado buscam fortalecer expressões associadas a esse patrimônio cultural, como o Circuito Nordestino de Quadrilhas Juninas e o reconhecimento de tradições regionais específicas.
Fonte: Agência Senado. Festas juninas movimentam cultura, turismo e projetos em análise no Senado. Disponível em: festas juninas movimentam cultura turismo e projetos em analise no senado (www12.senado.leg.br)
TEXTO IV - Políticas culturais para fortalecer tradições populares
O Ministério da Cultura informa que projetos voltados a arraiás, quadrilhas e atividades juninas receberam apoio por meio de mecanismos de fomento cultural. A pasta também destaca que as festas juninas estimulam o turismo e a economia local, especialmente no Nordeste, ao mesmo tempo em que preservam saberes, vínculos comunitários e expressões artísticas populares.
Fonte: Ministério da Cultura. Símbolos da cultura popular brasileira, festas juninas ganham força com políticas culturais do MinC. Disponível em: simbolos da cultura popular brasileira festas juninas ganham forca com politicas culturais do minc (gov.br)
Quais repertórios usar?
Para escrever sobre a valorização das festas juninas como patrimônio cultural, combine repertórios de legislação, sociologia, antropologia, memória coletiva e cultura popular. Assim, o texto evita tratar a festa apenas como comemoração escolar ou evento turístico e passa a analisá-la como direito cultural, identidade regional e patrimônio imaterial que precisa de preservação e políticas públicas.
Fatos históricos e marcos legais
🏭 Constituição Federal de 1988
Os artigos 215 e 216 da Constituição garantem o pleno exercício dos direitos culturais e reconhecem o patrimônio cultural brasileiro em suas formas materiais e imateriais. Esse repertório ajuda a defender que preservar festas juninas não é favor do Estado, mas cumprimento de um direito cultural.
🏭 Lei 14.555/2023
A Lei 14.555/2023 reconhece as festas juninas como manifestação da cultura nacional. Na redação, ela pode ser usada para mostrar que o Brasil já reconhece juridicamente a importância dessa tradição, mas ainda precisa transformar o reconhecimento simbólico em ações concretas de valorização, financiamento e preservação.
🏭 Lei 14.900/2024
A Lei 14.900/2024 incluiu as quadrilhas juninas no reconhecimento como manifestação da cultura nacional. Esse repertório fortalece a tese de que os grupos que organizam danças, figurinos, músicas e apresentações também devem ser vistos como fazedores de cultura, e não apenas como entretenimento de época.
🏭 Festas de São João no Nordeste
As festas de São João em cidades como Campina Grande e Caruaru mostram como a tradição junina movimenta turismo, comércio, música, culinária, artesanato e economia criativa. O exemplo ajuda a argumentar que a cultura popular também gera renda, trabalho e pertencimento comunitário.
🏭 Campanha de Mário de Andrade pela cultura popular
No século XX, Mário de Andrade pesquisou manifestações populares brasileiras e defendeu que elas fossem compreendidas como parte central da identidade nacional. Esse repertório ajuda a combater a ideia de que cultura popular é inferior à cultura erudita.
Produções teóricas
📚 Darcy Ribeiro - O povo brasileiro
Darcy Ribeiro entende o Brasil como resultado da combinação de diferentes matrizes culturais. No tema, esse repertório permite explicar que as festas juninas expressam a formação plural do país, misturando religiosidade, culinária, música, dança e tradições regionais.
📚 Néstor García Canclini - culturas híbridas
Canclini discute como as culturas se formam pela mistura entre tradições, modernidade, mercado e meios de comunicação. As festas juninas se encaixam bem nessa lógica, pois preservam elementos tradicionais, mas também se adaptam a grandes eventos, turismo, redes sociais e indústria cultural.
📚 Stuart Hall - identidade cultural
Hall ajuda a analisar a identidade como construção histórica e social. Na redação, ele pode ser usado para defender que valorizar festas juninas é também valorizar formas de pertencimento regional e nacional, especialmente em um país marcado por diversidade cultural.
📚 Pierre Nora - lugares de memória
Pierre Nora afirma que lugares de memória preservam símbolos, práticas e lembranças coletivas. As festas juninas podem ser interpretadas como espaços de memória social, pois mantêm vivas tradições transmitidas entre gerações.
📚 Luís da Câmara Cascudo - Dicionário do folclore brasileiro
Câmara Cascudo é um dos principais estudiosos da cultura popular brasileira. Seu trabalho ajuda a fundamentar a ideia de que comidas típicas, danças, músicas e celebrações populares são fontes legítimas de conhecimento histórico e social.
Produções culturais
🎬 Viva São João! - documentário
O documentário acompanha Gilberto Gil em uma viagem por festas juninas do Nordeste e mostra a força da música, da religiosidade e das tradições populares. Ele pode ser usado para discutir a festa como expressão viva da identidade cultural brasileira.
🎬 O Auto da Compadecida
A obra de Ariano Suassuna valoriza elementos da cultura popular nordestina, da oralidade, da religiosidade e do humor regional. Na redação, ela ajuda a defender que manifestações populares carregam sofisticação estética e relevância social, mesmo quando são tratadas com preconceito.
🎵 Asa Branca - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
A música é um símbolo da cultura nordestina e aborda seca, migração, saudade e pertencimento. Ela pode ser usada para relacionar festas juninas à memória afetiva do Nordeste e à necessidade de combater estereótipos regionais.
📖 Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
A obra retrata desigualdades sociais no Nordeste e pode ser usada para evitar uma visão romantizada da cultura regional. O repertório ajuda a mostrar que valorizar festas juninas também exige reconhecer os desafios sociais enfrentados pelos territórios que produzem essa cultura.
🎵 São João na Roça - Luiz Gonzaga
A canção representa o imaginário das festas juninas, com referências à dança, ao encontro comunitário e à vida no interior. Ela funciona como repertório para discutir como a música popular preserva modos de vida e memórias coletivas.
Quais argumentos usar?
Argumento 1 - Desvalorização da cultura popular
Problema: apesar do reconhecimento legal, muitas manifestações populares ainda são tratadas como entretenimento simples, sem o mesmo prestígio dado a expressões culturais consideradas eruditas.
Causa: há uma hierarquização cultural que associa tradições populares, regionais e nordestinas a estereótipos, reduzindo sua complexidade histórica, artística e social.
Consequência: essa desvalorização dificulta o reconhecimento dos grupos que mantêm a festa viva, como quadrilheiros, músicos, costureiras, artesãos, produtores culturais, brincantes e comunidades locais.
Solução possível: ampliar políticas públicas de fomento, registrar e divulgar a história das festas juninas e fortalecer ações de educação patrimonial nas escolas.
Argumento 2 - Desigualdade regional e invisibilidade dos fazedores de cultura
Problema: embora as festas juninas movimentem turismo e economia, os trabalhadores da cultura popular nem sempre recebem valorização proporcional ao impacto que geram.
Causa: parte das políticas culturais ainda se concentra nos grandes eventos e nos artistas de maior visibilidade, deixando grupos tradicionais em posição mais vulnerável.
Consequência: a tradição corre risco de depender apenas do esforço comunitário, sem financiamento contínuo, formação técnica, documentação e proteção institucional.
Solução possível: criar editais específicos, circuitos regionais, programas de formação e mecanismos de valorização dos mestres, quadrilhas e coletivos culturais.
Argumento 3 - Escola e transmissão da memória cultural
Problema: a escola muitas vezes trabalha festas juninas apenas como evento recreativo, sem explorar sua dimensão histórica, social e identitária.
Causa: a educação patrimonial ainda é pouco integrada ao currículo escolar, o que limita o contato dos estudantes com a história das manifestações culturais populares.
Consequência: novas gerações podem consumir a festa sem compreender seus significados, o que enfraquece a preservação da memória coletiva.
Solução possível: desenvolver projetos pedagógicos que relacionem festas juninas a história, literatura, geografia, sociologia, arte e cidadania.
Como começar uma redação sobre festas juninas?
Uma boa introdução precisa apresentar o repertório, contextualizar o problema e indicar a tese. Veja um modelo:
Embora as festas juninas tenham sido reconhecidas pela Lei 14.555/2023 como manifestação da cultura nacional, sua valorização ainda enfrenta obstáculos no Brasil. Isso ocorre porque a cultura popular, especialmente a de origem regional e comunitária, continua sendo muitas vezes reduzida ao entretenimento, sem o devido reconhecimento histórico e social. Nesse contexto, a desvalorização dos fazedores de cultura e a insuficiência de ações educativas dificultam a preservação desse patrimônio imaterial.
Como desenvolver a argumentação?
No desenvolvimento, o estudante pode defender que o reconhecimento legal é importante, mas insuficiente. A lei cria uma base simbólica e institucional; porém, a valorização real depende de investimento, educação e políticas culturais permanentes.
Em primeiro lugar, é necessário destacar que o reconhecimento jurídico das festas juninas não elimina, por si só, a desvalorização histórica da cultura popular. Isso porque tradições regionais, como as quadrilhas, ainda são frequentemente associadas a estereótipos ou tratadas como manifestações menores. Dessa forma, grupos responsáveis por preservar músicas, danças, figurinos e saberes comunitários permanecem invisibilizados, apesar de sustentarem uma expressão fundamental da identidade brasileira.
Outro caminho é discutir a escola:
Além disso, a ausência de uma educação patrimonial consistente contribui para a fragilização dessa memória coletiva. Quando a escola limita as festas juninas a apresentações decorativas, perde-se a oportunidade de discutir suas origens, seus significados sociais e sua relação com a diversidade cultural brasileira. Assim, o ambiente escolar deve ser usado como espaço de valorização crítica das tradições populares.
Como fazer uma proposta de intervenção?
Para o Enem, a proposta deve apresentar agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. Veja um modelo:
Portanto, para valorizar as festas juninas como patrimônio cultural no Brasil, o Ministério da Cultura, em parceria com o Ministério da Educação e secretarias estaduais, deve criar um programa nacional de educação patrimonial sobre tradições populares. Essa ação deve ocorrer por meio de materiais didáticos, oficinas com mestres da cultura, editais para quadrilhas juninas e registros audiovisuais das festas locais, a fim de preservar a memória coletiva, combater estereótipos regionais e garantir reconhecimento aos grupos que mantêm essa manifestação viva.
Conclusão
As festas juninas são muito mais do que uma celebração típica do mês de junho. Elas expressam identidades regionais, movimentam a economia criativa, preservam saberes comunitários e fortalecem vínculos entre gerações. Por isso, o reconhecimento legal das festas e das quadrilhas juninas é um avanço importante, mas não encerra o problema.
Para que essa manifestação seja realmente valorizada, é preciso transformar patrimônio reconhecido em patrimônio protegido, ensinado e financiado. Em uma redação no estilo Enem, esse é o ponto central: mostrar que cultura popular também é direito, memória e cidadania.